sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Entrevista - Josh Making Songs


A entrevista da vez é com o trio curitibano Josh Making Songs, que conheci há pouco tempo, mas me impressionou muito com seu primeiro EP, bem gravado e com qualidade que não perde pra nenhuma banda já consolidada no cenário atual. Se você gosta de Mineral, Embrace, Sunny day real estate e Samian, perceberá na primeira música, ''Travis Bickle'' muito desse lance anos 90. Confira a entrevista abaixo e ouça o Ep completo. 

Primeiramente, gostaria de parabenizar a banda pelo excelente som e também perguntar quando e como a banda se formou?

Guga: Valeu, cara! A banda foi formada no começo de 2012 e começou quando a Dosed, antiga banda minha e do Felipe, acabou. Nós três já nos conhecemos há quase 10 anos e sempre conversávamos sobre fazer música juntos, mas até então ainda não tínhamos feito nada. O Lebenyk (que já tocou no Rosie and Me e fazia músicas sozinho no projeto Lacuna Inc) um dia disse que tinha umas músicas na linha "emão 90" pra trabalhar e marcamos um ensaio pra ver o que rolava. Logo de cara a parada funcionou e estamos com a Josh desde então.

Como foi o processo da gravação do primeiro EP do Josh Making Songs? Quais foram as maiores dificuldades?

Guga: A gente já teve banda antes e já tomou muito na cabeça até aqui, então nossa ideia com a Josh era fazer tudo direitinho, mesmo que levasse mais tempo e saísse mais caro. Exatamente por isso, o processo todo levou uns 9 meses entre pré-produção e lançamento virtual. Se formos colocar na conta também o tempo de composição, vai pra um ano e meio de trampo, e isso que ainda estamos correndo com as cópias físicas. HAHAHA As maiores dificuldades acabam sendo conciliar a banda com a vida adulta (emprego, estudo e as outras obrigações) e, é claro, o lado financeiro, ainda mais dividindo todos os custos apenas entre nós três. Não foi fácil, não foi barato e a gente sabe que não vai haver qualquer retorno financeiro, mas o amor pela música fala mais alto.

Já conseguiram perceber um retorno positivo do publico que ouviu o ep ?

Guga: Sim e isso é muito legal! É o que faz sentir que valeu a pena todo o tempo, dinheiro e suor investidos. Estávamos orgulhosos do EP, mas a gente não esperava um feedback tão positivo e tão rápido.

Logo nos primeiros minutos, vocês já mostram uma sonoridade bem marcada pelo emo anos 90, mas quais foram as bandas que influenciaram diretamente o som de vocês?

Guga: A gente gosta muito do "emo de verdade" dos anos 90 e ele com certeza influenciou muito a gente; Samiam, Jawbreaker, Texas is the Reason, Sunny Day Real Estate, Hot Water Music, Mineral, Weezer, Death Cab For Cutie, Jimmy Eat World, At The Drive-In e por aí vai. Mas temos um apego especial pela música do fim dos anos 80 e do começo da década de 1990, daquela fase do shoegaze, do grunge, do college rock e do começo do emo: Dinosaur Jr., Elliott Smith, Sonic Youth, Fugazi, Pixies, Hüsker Dü, Sugar, The Jesus and Mary Chain, Nirvana, Embrace, Smashing Pumpkins, Seaweed, Radiohead... a lista é gigante. HAHAHA E a gente gosta muito também do "revival" do emo que tá rolando na gringa com Balance and Composure, Title Fight, Make do and Mend, Polar Bear Club e tantas outras.

Quais são os planos da banda ? Pensam em lançar mais algum trabalho a curto prazo?

Guga: Agora nossa ideia é tocar por aí, tanto quanto possível. A prioridade é essa, mas já estamos compondo para um futuro disco/ep/split. Não será nada a curto prazo, mas vai rolar som novo em algum momento do ano que vem sim. No mais, pro EP ainda, lançaremos cópias físicas em novembro e talvez role um clipe no começo de 2014, se os nossos bolsos deixarem. HAHAHA

Espaço para deixar mensagem, links de contato e divulgação.

Guga: Muito obrigado a todos que estão parando pra ouvir, baixando, comentando coisas bacanas, mostrando para os amigos, chamando pra tocar e ajudando de alguma maneira! Quem ainda não conhece o som pode conferir e downloadear no nosso bandcamp (joshmakingsongs.bandcamp.com). Para saber mais sobre a gente e ficar por dentro do que está por vir, curtir a nossa página no Facebook é o canal (http://facebook.com/joshmakingsongs). Valeu!


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Entrevista - Bankete de Lixo



Mais underground que nunca! O ZM que começou as atividades com o hardcore de Olinda/PE volta agora para região nordeste, exatamente em Parnaíba, cidade litorânea do estado do Piaui, com a banda Bankete de Lixo que toca um som punk bem cru, influenciado pelo punk nacional dos anos 80. A conversa com o vocalista e baixista David de 21 anos pode abrir a mente do pessoal de outras regiões, mostrando que o punk e a atitude DIY pode romper todas as barreiras. Se liga!

Quando a banda começou e qual é a formação ?

A data da banda é dia 14 de agosto de 2011. Bom, a primeira formação oficial era Joyce, (minha namorada) Vocal, Leandro Guitarra, Isaac bateria. Eu entrei bom tempo depois da banda, por conta da minha namorada, sou David e toco Baixo mas devido a uns problemas de saúde, a nossa vocalista teve de se ausentar e agora ficou eu no vocal e baixo.

Da onde surgiu o nome bankete de lixo? Tem haver com a musica do Raul Seixas?

A banda toda é muito fã de Raulzito, e é uma parada bem ligada a crítica social... é uma coisa que aos olhos da sociedade está sendo comum, pessoas vivendo do lixo, passando por necessidades...

Quais são as influencias ?

Bom... as influencias do Bankete de Lixo vem de muitas bandas clássicas nacionais que dão a cara a bater nas letras e o foda-se o sistema, como: Lixomania, Restos de Nada, Calibre 12 e a GRANDE INFLUENCIA é Cólera.

Como você conheceu e teve contato com a cena punk?

Conheci o Punk quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, através de uma namorada da época, só que era mais ligado em uma parada mais musical quando comecei a conhecer.

E os projetos em andamento da banda?

Os projetos da banda é mais divulgação como: montagem de Demos e tals. Estamos com 7 músicas de autoria, queremos fechar pelo menos 10 pra terminar a 1ª demo do Bankete de Lixo.

Como você vê a cena punk/rock daí de Parnaiba? Quais outras bandas existem?

Cara, a Cena Punk em Parnaíba já foi muito forte, ai deu uma fraquejada e agora está voltando a tona! e banda tem uma porrada ai, que está muito em fala na cidade: Inseticida (outro projeto meu), Rebordosa, Aneurisma, Mad Society, tem uma banda que é das antigas, mas ainda hoje é muito falada REPROVA BOY. Desculpem as que estou me esquecendo.

E o coletivo grito punk como funciona?

Eu tive a ideia com alguns amigos de fazer voltar o Grito Punk mas sendo agora o Grito Punk Produções pra poder apoiar todas as bandas da cidade do estado e de estados vizinhos. Não pagamos bandas. Os primeiros eventos do GPP está sendo pra arrecadar dinheiro para aumentar o cafofo de ensaio do núcleo onde surgiu o GPP. Nosso 1º evento veio uma banda de Teresina a Vermez Inuteiz, os caras se tornaram muito amigos da galera aqui... pretendem voltar mais vezes, pois a galera curtiu muito o som deles e eles gostaram muito da cena de Parnaíba.

Conta como foi o show punk que aconteceu em frente a câmara municipal de Parnaíba ..

A banda que tocou foi a Inseticida, tocamos em frente a câmara municipal em uma manifestação contra corrupção, usando a própria energia elétrica da Câmara xingando e lutando pelos nosso direitos, falando a verdade na cara dos corruptos vereadores que ali passavam. Giliard nosso vocalista falou algumas belas verdades para os vereadores presentes; "O espaço é cultural! Teatro também é cultura! Então, se algum dos senhores desejar fazer uso da palavra, podem vir 'brincar' de atores aqui também". E como nada consta em relatos antigos, a Banda Inseticida pode se considerar a 1ª banda de punk a protestar na frente da câmara municipal.

Qual o processo pra criação das letras?

O Bankete escreve o que o Brasil vive e o que o Bankete vê.... ensaiamos na periferia da cidade, e lá encontramos de todo tipo de gente; do marginal, a um trabalhador, e todos eles nos repeitam, pois eles ouvem nossos trabalhos, e sabem que não estamos mentindo no que sentimos, e sabem também que não somos utópicos. Tem história do Leandro (guitarra) que trabalha com construção, e em trabalho, ele pegou um lápis e escreveu a música em um papel de cimento pra não esquecer... pra ver o quanto underground é!

Pra finalizar deixe alguns links do seu trabalho...

Alguns videos das nossas musicas: 



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Rattus de volta ao Brasil

A clássica banda de Hardcore/Punk Rattus irá fazer uma tour de comemoração dos 35 anos da banda, pouco né? A última vez que eles tiveram por aqui foi em 2007, há 06 anos atrás. Agora a banda irá fazer 12 shows frenéticos de norte a sul do país, incluindo um show no litoral, Itanhaém. Só jesus of punk sabe quando a banda retorna pra tocar por aqui, então é bom garantir sua presença. Vão perder essa punx ?????????
Seguem as datas, sujeitas a alterações, da tour: 
13/09 - TBA
14/09 - Ferraz de Vasconcelos-SP
15/09 - Estúdio Noise Terror - São Paulo-SP
17/09 - Itanhaém-SP
18/09 - Ceilândia-DF
19/09 - Goiânia-GO
20/09 - Jd. Inga-GO
21/09 - Gama-DF
22/09 - Palmas-TO
26/09 - Cidadão do Mundo - São Caetano-SP
27/09 - Rio de Janeiro-RJ
28/09 - Florianópolis-SC

29/09 - Brasília-DF



Zine online #3



Entrevista com Nenê Altro, textos e resenhas 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Dillema assina com o selo Burning London Sounds



A banda de hardcore Dillema/Pe, que concedeu a primeira entrevista ao zine, assinou em abril/2013, com o selo BLS, que também conta com as bandas Pense e Cordoba. Ótima oportunidade para o Dillema expandir seu trabalho para outras regiões, principalmente com o segundo CD já encaminhado. Conheci a banda em 2010, época do antigo Orkut e do recém-lançado 1º CD Expresso Barbárie. Sinto uma grande felicidade de, 03 anos depois, ter a oportunidade de entrevistar a banda e de dar essa grande noticia. Agora é torcer para que venha uma boa tour e que a banda passe cada vez mais sua mensagem a diante.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Resenha: O Diabo Sempre Vem Pra Mais Um Drink



Resenha: O Diabo Sempre Vem Pra Mais Um Drink é o título do segundo livro do Nenê Altro, lançado em 2011 pela teenager in a box de forma independente, e que da sequência final à seu antecessor ''Funerais do Coelho Branco''.

De forma poética, o autor narra uma época de sua vida, ou uma transição, onde ainda lidava com ''poetas'' à ''geminhas moles'', mas sempre consciênte de seu inimigo ''EU''. Essa transição que tantas vezes parece incerta durante a leitura, vai se mostrando em pequenas linhas, e versos, que denotam essa vontade de mudança, e creio que se concretizando ao final do livro e por fim com a sua publicação.

Mais do que claro está a necessidade do autor escrever. Não uma necessidade qualquer, movida à prazos ou interesses. É uma espécie de catarse, libertação de tudo que esta preso dentro de si. Tão libertadora que Gregor Samsa, incapacitado de escrever, sentiria inveja em seu pequeno quarto fechado.

São 55 poemas em quase 100 folhas, dentre os quais destaco: ''Mau Ateu'', ''Hoje Eu Mataria Um Poeta", ''Cão Sem Bolas'' e ''I See the Bad Moon Rising''. Com grandes ilustrações de Felipe Moreno e ainda prefácio do cantor Jair Naves. Para comprar o livro, mande email para:   teenagerinaboxdistro@gmail.com que irá receber todas as informaçôes de como adquiri-lo.
''Para ler, ou se preferir, atirar ao mar''.





sábado, 15 de junho de 2013

Entrevista: Nenê Altro (Dance of Days e Seek Terror)


Muitos leitores desse blog não eram nem nascidos enquanto o entrevistado dessa edição já estava cantando por diversas bandas punks. Só para deixar um pequeno registro, aí vai algumas das principais: Sick Terror, Dance of Days, Mal de Cain, Pesonal Choice, Maldita Minoria e Total Terror Dk. Isso por que deixei algumas, da imensa lista, de fora.
Mais que punk, um incentivador da cena underground no geral, trabalha com zines e selos musicais. O próprio Zine Manifesto surgiu, um pouco, influenciado por isso. No passado, ele produziu o lendário Jornal Antimídia, e atualmente é o Rock do ABC que marca presença. 
O resultado de todo esse trampo não poderia ser diferente, só o DoD já esta na ativa há mais de 15 anos com 10 Cds lançados, 02 Dvds, e um publico mais que fiel à banda.
Entrevistar o Nenê Altro é mais uma conquista para um Zine que começou timido, e em menos de 05 meses, já na terceira edição (especial), colhe os frutos que a atitude DIY rende. Definitivamente quando se tem vontade, as coisas acontecem. Esse é o espirito: a vitória ou coisa que valha!


ZM. 16 anos de estrada com o Dance of Days, muitos CDs e DVDs lançados depois, e finalmente prestes a lançar um novo trabalho, quais as principais mudanças positivas e negativas que você vê nos dias de hoje?

NENÊ ALTRO – Cara, vou te falar que eu curti muito os anos 80, 90 e 2000, mas não sou saudosista, o que tem hoje rolando é muito bom, tem muita banda boa, muita molecada interessada. Acho que o grande inimigo mesmo é esse “senso comum” de que tudo ficou pra trás. Aprendi isso, até mesmo com o Dance of Days, aproveitar o máximo e viver o presente, nem de sombras do passado nem de planos pro futuro.


ZM. Além do Dance of Days, conte um pouco sobre quais são as bandas você esta trabalhando como o Seek Terror e atividades como zines, politica, livros etc.

NENÊ ALTRO – Bom, além do Dance of Days só canto mesmo no Seek Terror, que foi uma história bem esquisita. Eu e o Marcelo criamos a banda em 1999, fizemos todas as letras, todas as músicas, ele saiu em 2002, eu saí em 2004, a banda meio que devia ter terminado, mas tentou seguir um pouco só que virou uma parada completamente diferente e acabou. Aí quando anunciamos o retorno com a formação original, incluindo o batera monstro Sandro Dias, que gravou o Aborto Legal e fez boa parte da turnê do Peste Católica, um outro antigo membro da banda registrou o nome que eu e o Marcelo criamos e nos impediu de usá-lo. No começo foi meio chato, ficamos meio tristes, mas depois resolvemos usar isso como um marco para um novo começo, uma nova banda, até porque já estávamos ensaiando uma parada mais street punk antes de pensarmos em voltar com o Seek Terror, então resolvemos juntar tudo e fazer o som punk que tanto amamos fazer. E fora que podem tirar tudo da gente, menos a criatividade e a verdade de fazer as coisas com o coração. O novo trabalho está um milhão de vezes mais legal que tudo que fizemos no estilo. Quanto a política, eu tentei participar de um coletivo anarquista entre 2010 e 2011, pois faço parte da luta desde o final dos anos 80, mas percebi que uma vez anarco-indivudualista sempre anarco-individualista. Não tenho paciência pra deliberações e condutas em grupo. Se eu quero fazer algo simplesmente vou e faço. E essa é minha maneira de fazer política.


ZM. Sobre o novo CD do DoD, como andam as gravações, tem alguma influencia ou sonoridade que esta sobressaindo? O que pode adiantar para os fãs?

NENÊ ALTRO – Temos cerca de 16 músicas prontas e ensaiadas, acho que vamos escolher umas 14 disso tudo. O som é Dance of Days, acho que não tem mais como falar que parece isso ou aquilo depois de tantos anos. Podemos tentar fazer som 80, punk rock, hardcore, pós-punk, que no final fica sempre com a mesma cara rsrsrs Devemos gravar entre Julho e Agosto de 2013, pelo menos esse é o plano. Mas não estamos com pressa, eu, particularmente, quero fazer um disco bom, independente de gravar logo ou mais pra frente.


ZM. Recentemente a banda teve a saída do guitarrista Tyello. Como a banda reagiu compondo com apenas uma guitarra? Teve muita mudança no som?

 NENÊ ALTRO – Não é nem tão recente mais, em Agosto já faz um ano e ele já está até com outra banda rsrsrs Mas sei lá, toda mudança de estrutura pede uma fase de readaptação. Tivemos que fazer novos arranjos, pois decidimos não colocar outra pessoa no lugar dele e seguirmos em quatro. Eu toco com o Verardi desde antes dele entrar no Dance of Days, de quando criamos o Seek Terror, então sempre soube que ele tinha potencial pra segurar essa responsabilidade. É claro que a sonoridade ficou mais a cara dele, mais punk, crua. Eu estou curtindo muito. E acho que a galera vai gostar bastante do novo disco só com ele.


ZM. O diy no punk é muito conhecido, porem, pouco usado. Eu mesmo penso que apenas conhecia a filosofia, e só há pouco tempo, consegui dar sentido a isso em minha vida. Você acha que o que acontece é receio ou medo de começar algo com as próprias mãos? É preciso romper muitas barreiras pra isso?

NENÊ ALTRO – Faça você mesmo é fazer sem intermediários, da sua maneira, sem esperar nada dos outros ou cair do céu. Não tem acesso a um jornal, faça você mesmo seu zine. Não gosta de nada que escuta, faça você mesmo sua banda. Tem muita gente burra no Brasil que distorceu completamente o sentido do DIY sobre argumentos idiotas que atrasaram muito tudo por aqui, confundindo o faça você mesmo com políticas de subculturas fechadas e sectárias, por exemplo, contra lançar cd MAS a favor de lançar vinil, contra usar tinta pra cabelo MAS usar papel crepom e sabão que é tão industrializado quanto. Coisa idiota que eu até entendo ter rolado nos anos 80 pois não tínhamos internet, nem acesso fácil à informação. Hoje é só burrice mesmo. A questão é que o faça você mesmo é, acima de tudo, uma atitude política, que, aplicado de maneira a você fazer por você o que quer fazer e não depender de nada nem de ninguém remete aos próprios princípios anarquistas e é por isso que ambas as coisas acabaram se agregando ao punk desde o seu início. O que há de ser vencido hoje não é o receio ou a falta de iniciativa, mas sim a apatia. E ela deve ser vencida como um obstáculo da evolução social imposto e mantido como instrumento de controle e dominação pelos que só tem a lucrar com ela.


ZM. Você é um cara que no seu trabalho sempre passou a mensagem de se informar, ler e fazer algo construtivo, isso esta se perdendo? Principalmente em uma referencia pra molecada, sabe? Assim como tivemos o Redson (Cólera). Como você acha que vai ser pra essas novas gerações? Pros jovens pegarem uma letra de musica e sentir que tem alguém dizendo algo diferente..

NENÊ ALTRO – Jamais se perderá. Nunca sabemos demais, sempre é tempo de aprender e crescer. Eu mesmo tive uma mudança recente em meus conceitos de vida que só chegou a mim aos 40 anos de idade e não me envergonho NADA em dizer que só consegui crescer com isso agora, mas digo sim que me orgulho em ter muitos anos pela frente pra crescer mais ainda e descobrir tantas coisas boas em viver com novos prismas. O Cólera mudou minha vida pois é impossível não escutar a primeira palavra cantada pelo Redson em um vinil e não dizer “esse cara canta o que vive, ele canta com o coração”. E foi isso que eu aprendi, nisso que me inspirei pra começar minha primeira banda lá nos anos 80 e sigo assim até hoje. Sabe por que o Dance of Days soa diferente? Porque se você passar um dia ao lado de cada um da banda vai perceber que é isso o que somos, acordamos assim, vivemos assim, não é só um estilo musical. Não importa o quão diferentes nossos discos soam entre si, cada um representa uma fase verdadeira que estávamos vivendo e todos soam o mesmo pois são transparentes. Quando eu escrevo uma música é como um desabafo, não uma fórmula de “quero dizer isso, aquilo e aquela outra coisa”. Muita gente se influencia com isso e eu acho isso sensacional, pois sinto que estou mantendo acesa a mesma chama que me trouxe até aqui.


ZM. A banda já esta há algum tempo com a mesma formação. E vcs parecem muito amigos, como é a relação entre os integrantes depois de tanto tempo de banda e estrada?

NENÊ ALTRO – Somos cada vez mais amigos e estamos cada vez mais juntos. Acho que eu, principalmente, como mencionei acima, após ter vencido uma fase bem complicada de minha vida me permiti deixar aproximar mais ainda de todos eles. E estou achando fantástico.


ZM. Lembro-me de algum texto seu, onde você disse algo como ‘’nunca vi tanta gente louca como no punk, parece hospício’’, não eram bem essas palavras, mas por ai... Um lugar onde é essencial para que as pessoas se encontrem e se aceitem, acaba virando algo muito fechado e intolerante devido a pessoas que querem mais ditar, como ser e o que fazer? Às vezes penso que é excesso em querer se afirmar em algo, mesmo não sendo sincero o espirito dentro da pessoa...

NENÊ ALTRO – O punk é uma coisa muito aberta, o que é muito positivo, mas tem também o lado negativo, pois atinge de maneira igual pessoas que são diferentes, que pensam diferente, que sentem o mundo de maneiras diferentes, de níveis culturais diferentes, de formações de caráter diferentes. Por exemplo, o punk de um moleque que abre a mochila de manhã e coloca seus discos, um livro e vai a um show não é o mesmo punk do moleque que coloca uma faca na bota, um soco inglês no bolso e vai pro mesmo show. As pessoas são diferentes, vivem e querem coisas diferentes. Eu já tentei muito juntar muito todo mundo, hoje estou meio que de saco cheio, trabalho com quem quer trabalhar, junto as pessoas que querem construir ou só curtir em paz e deixo os brigões se matarem entre si com sua loucura idiota e autodestrutiva.


ZM. As suas letras e textos são cheios de referencias à livros e autores, o que você tem lido ultimamente? Quais livros você acha indispensável para os jovens, principalmente, se libertarem das ideias impostas?

NENÊ ALTRO – Bom, no ano passado li bastante coisa do Crimethinc. Depois achei classe média norte americana bancando de miserável demais e parei de ler. Mas tem coisas boas, só que muito não se aplica a uma realidade terceiro-mundista. Max Stirner e Malatesta me ajudaram muito em minha formação, mas hoje me dão um pouco de preguiça. Pra falar a verdade o que eu acho é que você tem que ter muita bagagem cultural, ler de tudo, saber o que está rolando a sua volta, principalmente por mídias alternativas. Acho que o mundo está acorrentado demais a teorias e fórmulas do início do século passado e que algo realmente novo tenha que surgir, pois enquanto se vive de ruminar os mesmos livros e autores o capitalismo se renova em velocidade estonteante. Meu conselho é, acima de ler muito, de aprender muito, de conhecer cada vez mais, que cada um FAÇA a sua própria cultura. Suas ideias, só por serem suas e serem novas já tem muito mais valor em sua vida do que as ideias de pessoas que já viraram vermes, adubo e grama dezenas de vezes.

ZM. Quais os seus planos de vida e trabalho daqui pra frente?

NENÊ ALTRO – Bom, me estabilizei em Santo André, com minha esposa Nicolle, e juntos abrimos um novo selo independente chamado Sacco Records. Também continuarei a lançar meus próprios livros. Tenho um zine local que faço por prazer chamado Rock do ABC. Bandas só pretendo ficar com o Dance of Days e o Seek Terror mesmo. O que vou me dedicar mais é a projetos culturais na região e também ao meu trabalho como produtor musical de bandas independentes, pois sinto que após tantos anos na estrada tenho muito a passar adiante.

ZM. Muito obrigado pela entrevista ao zine, espero que tenha gostado, Nenê. Pra finalizar, gostaria que deixasse alguma mensagem para o os fãs da banda e do seu trabalho em geral. Go Dance Go

NENÊ ALTRO – Eu que agradeço! Espero ver publicada não só em formato online como impresso! Nos últimos anos eu travei uma grande luta interior e muita gente aproveitou de minha necessidade de isolamento para tentar atingir meu trabalho, minha história, minha luta. Minha mensagem nesse início de 2013 é meu muito obrigado aos que realmente me conhecem e acompanham meu trabalho e que não se deixaram atingir pela maldade que há no abismo. Hoje, após quase três anos, muita gente está chegando a mim e se desculpando, falando que foi levada pela euforia, e eu até entendo, pois precisei mesmo me isolar e por isso não podia me defender dos absurdos que falavam de mim e do Dance of Days. Mas agradeço mesmo a quem sempre esteve a meu lado, independente de que o mundo ao redor ardesse em chamas. A esses eu digo, nossa frequência está e sempre estará no ar. Forte e grande é você, fortes e grandes somos nós. Abraços galera.